Blog

Insights de gestão para você antecipar, assimilar e solucionar os seus desafios de negócio

Tesouraria: principais desafios na atuação LATAM
A atuação da tesouraria frente ao cenário político-econômico da América Latina

Conecte-se

[addthis tool=addthis_horizontal_follow_toolbox]

As configurações de novos cenários políticos e econômicos na América Latina demandam atenção contínua dos profissionais de tesouraria, especialmente das empresas que precisam lidar com diferentes políticas de tributos, funding, conversibilidade de moedas, legislações etc.

Diante da relevância da temática, tivemos na última edição do evento Treasury Virtual Experience, em setembro, um painel que discutiu a atuação das tesourarias no âmbito da América Latina e contou com a participação da Camila Abel Correia, Treasury and Risk Committee Coordinator do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (IBEF-SP) e Director of Finance and Risk da AES Tietê; Roberto Prado, Director of Treasury South America da Bridgestone; e Rafael Carneiro, Global Treasury da Wildlife.

Continue a leitura e conheça os principais pontos abordados pelos especialistas!

Principais desafios do tesoureiro na atuação LATAM

De acordo com Rafael Carneiro, o primeiro grande desafio é ter uma visão empática, pois muitas vezes o tesoureiro tende a impor a visão do Brasil nos outros países, mas cada um deles tem as suas próprias particularidades. Entender o cenário de cada país e ouvir os profissionais que estão inseridos naquele contexto é fundamental.

Na Argentina, por exemplo, é comum o pagamento com cheques, por isso eles se importam mais com o recebimento do cheque do que com a data de compensação. Na Colômbia, no e-commerce, boa parte das compras são feitas na modalidade cash delivery – o motoboy recebe o valor em dinheiro no momento da entrega.

Segundo Roberto Prado, na Europa e América do Norte há uma tendência de ter-se produtos financeiros mais homogêneos e similares. No cenário LATAM existem alguns desafios particulares a serem lidados no dia a dia, como questões de fluxo de capitais, alterações frequentes de legislações fiscais e tributárias e isso influencia na forma como a tesouraria opera e nas mudanças que precisam ser realizadas.

A AES possui geração e distribuição em vários países do mundo e tem se tornado cada vez mais uma empresa das Américas, ressaltou Camila Abel Correia. Por isso, ocorrem muitas discussões em comitês de tesouraria e riscos que trazem análises importantes para a área.

O Chile, por exemplo, tem um preço horário muito avançado se comparado ao Brasil, e há um projeto de lei que visa trazer grandes avanços para o setor elétrico, mas ainda temos muito o que aprender com os países vizinhos.

Como estes desafios foram intensificados com a pandemia?

Para Roberto, todos os segmentos foram afetados em maior ou menor escala. Mas os economistas dizem que tivemos um choque de oferta e de demanda, ou seja, não se tinha demanda de produção, ao mesmo tempo em que alguns insumos faltavam nos mercados.

A forma como isso será endereçado parte da macroeconomia LATAM e global. Falando especificamente do Brasil, tem-se uma questão fiscal importante, e o gasto do governo para manter a economia rodando é muito relevante, mas pode trazer consequências futuras.

A retomada vai ocorrer a partir de investimentos externos. Para ser atrativo, o país precisa ter uma questão fiscal equacionada e essa não é a realidade atual, portanto, o Brasil não é um polo chamativo de investimentos. A pandemia vai permanecer na agenda, e a retomada depende um pouco capital externo que ainda é um ponto de interrogação.

Na visão do Rafael, no começo todos os negócio foram afetados, mas, ao mesmo tempo, surgiram algumas oportunidades, exatamente pelo juros baixos e a alta do dólar, então todas as empresas que importam estão se beneficiando. A Wildlife, por exemplo, tem receita em dólar e despesas em real.

Além disso, os negócios digitais estão tendo um excelente momento, pois as pessoas tiveram que migrar sua forma de consumo. Antes da crise, apenas 3% das roupas eram compradas online, então vários e-commerces de moda aproveitaram essa onda, com os índices de penetração triplicando.

Nesse tipo de negócio, a tesouraria teve que ter um olhar diferenciado. No início da pandemia, ele trabalhava na Dafiti e precisaram olhar para a liquidez, mas um mês depois este cenário mudou e começaram a ter a visão de suportar oportunidades, como, por exemplo, dar crédito para parceiros da indústria que não estavam tão bem. A crise pegou todo mundo e o tesoureiro passou a ser peça-chave: a palavra de ordem é liquidez para as empresas suportarem esse período.

Proteção ou realização de novos investimentos?

Proteger patrimônio e buscar novos investimentos podem andar juntos, de acordo com Rafael. Na Wildlife, começaram a olhar oportunidades, fizeram dois rounds importantes de investimentos na empresa, pois estavam vendendo muito e começaram a pensar em um fundo com capital intensivo para encontrar novas oportunidades.

Trouxeram um fundo com valuation três vezes maior do que no começo da crise e estão buscando opções para usar essa capital. Além disso, estão contratando 20 pessoas por semana e a tesouraria tem sido fundamental para fazer isso acontecer. Mas isso tudo sem deixar de lado a proteção do capital, pois na crise tudo pode acontecer.

Complexidade da atuação do tesoureiro na Argentina

Operar na Argentina implica em uma série de complexidades, boa parte das empresas lá estão impossibilitadas de efetuar remessas ao exterior. O mercado vem se fechando por uma questão econômica, já que o número de reservas do país diminuiu expressivamente nos últimos 12 meses.

A comunicação nesse ponto é fundamental, expressou Roberto. A Bridgestone possui inúmeros fornecedores globais, portanto, quando viram o resultado das eleições primárias iniciaram uma comunicação efetiva com a matriz nos EUA e Japão, detalhando todas as medidas e os riscos,deixando todos em alerta e facilitando os processos futuros.

Outro ponto importante foi trabalhar com bancos locais, buscando alternativas para efetuar os pagamentos aos fornecedores, mas, mesmo assim, existe um estoque de dívidas que é permanente e não há um horizonte para resolução.

A Wildlife adotou a mesma postura de se preparar durante a eleição de Alberto Fernández, pensando em como ficaria o fluxo de pagamentos aos fornecedores. O desafio é manter a liquidez, negociar com fornecedores explicando a situação e dando a segurança pautada na operação global. Segundo Rafael, é um trabalho de empatia e parceria com advogados locais, pois sempre aparecem novidades e ter esse respaldo é extremamente importante.

Mudanças efetivas no dia a dia de trabalho

“Houve mudanças, algumas lideradas pela tesouraria e outras pelas demais áreas. Para a empresa, ficou claro que liquidez foi o ponto central, sem sombras de dúvidas”, destacou Roberto Prado em uma de suas falas. A rapidez foi primordial para mapear todas as alternativas de preservação do fluxo de caixa, em paralelo, buscaram entender junto aos bancos quais as linhas de financiamentos disponíveis para ajudar os fornecedores.

Rafael destacou a mudança de algumas políticas, pois no varejo a tesouraria participa efetivamente do capital de giro da empresa. No começo, controlaram as compras para o caixa ficar sustentável, mudaram um pouco a política de antecipação de recebíveis para um prazo menor. Alteram também o critério da política de risco sacado para ajudar os fornecedores e as de head foram todas revisitadas.

A AES teve a política de crédito, na crise surgiram riscos novos. Mas vários já existiam no negócio e foram ressaltados, com isso, foi preciso dar mais atenção ao funcionamento do processo. De acordo com Camila, eles começaram a pensar em como poderiam ajudar toda uma cadeia de fornecedores nesse momento e como ter políticas específicas para esta finalidade.

Perspectivas para 2021

Na visão de Camila, para o setor elétrico a expectativa é muito positiva para 2021, já que o governo tem dado prioridade para o setor com marcos regulatórios que podem trazer maior segurança. A ideia é tornar o segmento com mercado livre mais ativo, menos regulado e com um varejo mais aberto, com empresas de menor porte tendo opção de comprar diretamente com empresas geradoras.

Rafael destacou o setor de mobile game, com uma perspectiva excelente para 2021 tendo em vista que as pessoas estão cada vez mais acessando jogos online. A indústria de games representa hoje um percentual maior do que a do cinema e música juntas. O varejo físico foi muito afetado, mas quem se digitalizou vai aproveitar bem as oportunidades do próximo ano.

O setor da Bridgestone é maduro e depende da recuperação da economia, muito do crescimento vai estar atrelado a retomada da economia em 2021. Se comparado com uma montadora, por exemplo, é um segmento mais resiliente pelo mercado de reposição que é grande pela venda ao consumidor final. Falando em crescimento especificamente, para Roberto, depende de aumento de demanda que está associada à uma recuperação econômica.

Quer continuar acessando conteúdos como este? Então acompanhe a Blueprintt nas redes sociais e inscreva-se na nossa newsletter!

Autor

Dayane Dechiche

Formada em Relações Públicas pela Universidade Metodista e pós-graduada em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo. Tem experiência com organização de eventos e produção de conteúdo. Atualmente, é analista de pesquisa e conteúdo da Blueprintt.