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Como aumentar a presença de mulheres em conselhos administrativos
Reunimos dicas de Maria Cecília Rossi, que tem grande experiência na BM&FBovespa e outras associações do mercado financeiro.

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Recentemente, a consultoria SpencerStuart divulgou uma pesquisa que mostra que apenas 9% das cadeiras são ocupadas por mulheres em conselhos administrativos.

A verdade é que incontáveis pesquisas e índices que vemos por aí mostram o quanto a presença feminina no Brasil ainda precisa ser inseridas em cenários muito segregados.

Os âmbitos são dos mais variados possíveis, desde o esporte, até a política e o mundo corporativo, por exemplo.

Quer saber uma curiosidade? Reparem em quantos nomes de ruas em São Paulo são dedicadas à mulheres.

Só assim já é possível enxergar o quanto a figura feminina é deixada de lado quando falamos em sua presença, desde pequenas à grandes posições por aí.

Hoje vamos falar de um dos ambientes mais excludentes do País, os conselhos administrativos.

Mas, antes, vale dar uma olhada em como está a presença feminina em alguns outros espaços da nossa sociedade, para já embarcamos no assunto com um olhar mais crítico.

Esporte

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em uma pesquisa realizada em 2015, 68% das mulheres no Brasil nunca sequer praticaram esporte.

E 40% das mulheres profissionais da área já passaram por algum tipo de discriminação de gênero, conforme o estudo Beyond 30 per cent: Workplace Culture in Sport, conduzido pela ONG britânica Women In Sport, entre setembro de 2017 e março de 2018.

Política

Conforme a pesquisa Inter-Parliamentary Union (uma associação dos legislativos nacionais mundial), ocupamos a posição 154 entre 193 países, quanto a presença de mulheres como deputadas federais.

O Brasil fica à frente de apenas alguns países como Ilhas Polinésias e Oriente Médio.

Tecnologia

Apenas 20% dos cargos no mercado de TI são ocupados por mulheres e elas recebem, em média, salários 30% menores, segundo pesquisa do IBGE.

Ciência

Apesar das mulheres serem metade da população mundial, apenas 28% delas são cientistas e pesquisadoras, sendo que 17 já receberam o Prêmio Nobel da Paz nas áreas de Medicina, Química ou Física.

Isso desde 1903, quando Marie Curie levou a nomeação. De lá até hoje outros 572 homens foram premiados, de acordo com dados da Unesco.

Mundo empresarial

A pesquisa Brazil Board Index 2017, da SpencerStuart, aponta também que apenas 44,3% das 173 empresas analisadas no País detêm pelo menos uma mulher em seu conselho administrativo.

Outro dado interessante também é a idade média de quem ocupa estes cargos que, de maneira geral, fica nos 55 anos.

Esse fato exclui ainda mais a presença feminina, já que mulheres nascidas na década de 60 se deparavam com cenários acadêmicos e profissionais restritivos, as impedindo de alcançar a proficiência necessária quando chegassem a este nível profissional.

Convidamos a Maria Cecília Rossi, Independent Supervisory Board Member da BM&FBovespa, para contar um pouco sobre a sua trajetória como membro de conselho administrativo e o que diria às mulheres que pretendem entrar neste mercado. Confira.

Trajetória

Maria Cecília RossiMaria Cecília se formou em Administração de Empresas na Fundação Getulio Vargas (FGV) e, na sequência, cursou mestrado na mesma instituição. Tem uma vasta experiência profissional em diversas instituições do mercado financeiro.

Sua trajetória em grandes cargos administrativos partiu da BM&F e foi para a Bovespa, para depois retornar à sua primeira experiência.

Após isso, ela teve um convite para atuar na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), primeiro como Superintendente de Desenvolvimento de Mercado e, depois, como Diretora, membro do Colegiado.

Saindo da esfera pública, ela fundou a Interlink, consultoria hoje especializada em regulação, compliance, infraestrutura de mercado e governança, que está prestes a completar 25 anos.

“Minha primeira atuação em Conselho de Administração decorreu de convite de Raymundo Magliano Filho, que concorreu à presidência da Bovespa, e ganhou, com uma chapa que propunha diversidade de participantes” conta Maria Cecília.

“Daí o convite a uma mulher e a um sindicalista, além de corretores, representantes de companhias abertas e fundos de pensão. Esse foi o conselho que deliberou pela abertura de capital da Bolsa, uma operação muito interessante, que tive o privilégio de acompanhar de perto”, continua.

Devido à oportunidade, ela procurou o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) para fazer o Curso de Formação para Conselheiros de Administração.

E, a partir disso, algumas portas se abriram, como um convite da própria IBGC, ao qual foi eleita pelos associados.

Também já assumiu o Conselho de Administração da BSM (supervisão dos mercados de Bolsa e Balcão), na qual hoje integra o Conselho de Supervisão. Além de Conselheira Fiscal independente da Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR).

Um episódio de preconceito

“Na época em que trabalhei na BM&F, segunda metade da década de 80, fui a um banco de origem japonesa apresentar a Bolsa e o uso de seus derivativos. Eu estava acompanhada por um colega homem, mas era eu quem falava”, relembra a executiva.

“Não obstante, todos os executivos olhavam para esse colega, como que esperando uma aquiescência. Eu era a única mulher entre dezenas de profissionais que estavam na sala e parecia não ser percebida por ninguém. Foi muito estranho”, afirma.

Mulheres em conselhos administrativos

“Acho que é importante começar e, nesse sentido, conselhos ‘probono’ em associações ou entidades ligadas à atividade profissional da postulante podem trazer experiência e oportunidade de demonstrar uma atuação engajada e competente, a qual pode abrir novas portas no futuro”, aconselha.

Ela conta que também se beneficiou por ter participado do Conselho Diretor da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), proporcionando uma exposição que resultou no convite para o conselho da Bovespa.

“Ainda hoje atuo em fóruns dessa natureza, como o Conselho de Regulação de Fundos de Investimento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e o Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap)”, lembra.

Para ela, é preciso que as mulheres busquem preparo em cursos de formação para conselheiras, obtenha certificação e tente angariar experiência em conselhos, ainda que não remunerados.

“Além disso, aperfeiçoem sempre seus conhecimentos, fazendo parte dos grupos pela diversidade em conselhos, que promovem debates e desenvolvem programas de mentoria para mulheres”

Entre os exemplos de conselhos assim, estão os organizados pelo WCD (Women Corporate Directors), IFC (International Finance Corporation) e IBGC.

Nestes grupos, conselheiros experientes, homens e mulheres, orientam aspirantes a Conselhos, numa relação individual, focada no desenvolvimento específico de cada um.

“Fui ‘mentorada’ na segunda edição do programa e me beneficiei muito das discussões com minha mentora, Lucia Hauptman. A gente nunca se sente totalmente preparada e isso é bom, porque nos desafia a superar continuamente nossas dificuldades”, frisa a conselheira.

Gostou das dicas de Maria Cecília Rossi?

Recomendo que também leia este artigo: lições sobre liderança com a primeira mulher no comando da federação mundial de RH.

Além disso, em janeiro será realizado o Congresso de Diversidade e Inclusão Corporativa (CDIC), promovido em janeiro pela Blueprintt. Participe!

Autor

Flávia Lima

Flávia Lima é jornalista pela PUC-SP e pós-graduada em Comunicação e Marketing pela ECA/USP. Possui ampla experiência como jornalista setorizada. Atualmente, é gerente de conteúdo da Blueprintt, responsável pelo planejamento de congressos corporativos nas áreas de RH Estratégico, Marketing e Tecnologia da Informação.