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5 práticas para iniciar a mudança cultural no jurídico e inovar
Saiba como ultrapassar as limitações desse departamento tão conservador e promover a inserção de tecnologias, melhorias e otimizações.

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Considerados como conservadores, os advogados que trabalham em grandes companhias também estão sendo atingidos pela transformação digital e todas as mudanças que o mundo moderno impõe. É o início da mudança cultural no jurídico.

O cenário é desafiador para gestores, uma vez que a quebra de paradigmas e a dissolução de barreiras culturais se apresentam como temas amplamente debatidos e urgentes diante das crescentes demandas do cliente.

Como ultrapassar essas limitações, enfrentar resistências e aproximar esse segmento da tecnologia, promovendo a inserção de melhorias e otimizações?

Neste post, vamos abordar esses assuntos e mostrar como especialistas de mercado enxergam esse panorama. Acompanhe!

  1. Mudança cultural no jurídico desde a formação profissional

Muitas das barreiras que existem na área jurídica têm origem já na faculdade. Alexandre Pacheco de Souza, Coordenador Executivo do Laboratório de Empresas Nascentes de Tecnologia da FGV-SP, é interessado em formar alunos com uma visão mais crítica e multidisciplinar, abordando a transformação do ambiente jurídico com a ajuda da tecnologia.

Por meio de um projeto sobre automação jurídica, seus alunos tiveram a oportunidade de, em parceria com uma empresa de tecnologia, aprender conceitos básicos de programação.

Sua ideia era entender se os alunos de hoje em dia conseguem acompanhar a mudança cultural no jurídico e interagir com outras áreas.

Para sua surpresa, a maioria dos alunos apresentou problemas não somente com a tecnologia, mas dificuldade em trabalhar em conjunto, desenhar projetos, cronogramas, estabelecer e controlar metas, questões essenciais para a gestão estratégica moderna.

“Percebi um grande gap e falta de habilidades básicas para o dia a dia corporativo que não fazem parte da formação jurídica, como planejamento, coordenação de equipes e criação de metas e ações”, diz Pacheco.

  1. Setor jurídico como parte da estratégia da companhia

Alexandre Pacheco nota ainda que as resistências que surgem desde a faculdade e permanecem nas empresas estão justamente ligadas à mudança cultural no jurídico.

Os desafios e a forma de advogados trabalhar nas empresas estão mudando, uma vez que as corporações exigem outro profissional: alguém com pensamento mais estratégico, que consegue trabalhar as demandas que vão além do conhecimento técnico.

Vivian Kurtz Vieira de Carvalho, Diretora Jurídica e de Compliance Brasil da rede de supermercados espanhola Dia, acrescenta que uma das maiores deficiências do setor jurídico nas instituições é se comportar como um suporte técnico, e não um departamento que faz parte da estratégia do negócio.

“É preciso mudar esse perfil, ajudando a empresa também a vender, reduzir custos, etc., virando um parceiro tão importante como os profissionais mais próximos do core business. A ideia é que possamos gerar mais resultados e ampliar o valor do grupo, colaborando para o crescimento do negócio”, diz.

  1. Atualizando a matriz de pensamento e de risco para agregar mais valor

“Qual é o melhor risco? Essa pergunta é a chave da mudança cultural no jurídico. Às vezes, perder é melhor. É preciso avaliar o que é melhor para a empresa e o que atende sua estratégia”, comenta Alexandre Albuquerque Almeida, Especialista Jurídico em Inovação e Tecnologia e Head of Legal and Compliance da Catho.

Nesse sentido, no Dia, Vivian e sua equipe começaram a usar processamento de dados para apresentar informações mais lógicas e relevantes para o board. Assim, passaram a analisar lojas que vendiam mais, que tinham maior número de processos trabalhistas e também alto turnover.

Seu intuito era cruzar essas informações e ter insights que pudessem ajudar o setor a ter uma abordagem melhor, trabalhar com erros e tomar decisões mais embasadas — em vez de apenas seguir a cartilha jurídica.

“Como advogados, fomos treinados a sempre dar a palavra final e não tolerar erros. Por exemplo, a formação clássica ensina um advogado a sempre recorrer em um processo. Mas quando você esta dentro de um negócio, deve-se ter uma visão global, trabalhar junto com outras áreas e refletir no que essa decisão agrega valor”, afirma.

Joaquim Ferraz Martins Filho, Diretor Jurídico da Renault, compartilha um caso de quando agiu pensando apenas no lado jurídico. Tempos atrás, um escritor publicou em um blog um artigo falando mal da companhia. Logo em seguida, o jurídico entrou em contato solicitando que o blog e o conteúdo fossem tirados do ar.

O autor não somente não tirou o post do ar como escreveu outro no qual dizia que a Renault estava o impedindo de expressar livremente sua opinião. A postagem, que antes tinha 3 mil acessos, ganhou 3 milhões em apenas 2 dias.

“Isso foi um grande aprendizado e um lembrete de como precisamos pensar de forma proativa e estratégica”, comenta sobre esse momento de mudança cultural no jurídico.

  1. A importância da integração e de tornar a linguagem jurídica mais acessível

Alem da resistência à tecnologia e inovação, um grande paradigma do direito é a questão da linguagem, muitas vezes inacessível. É um dos primeiros pontos quando se pensa na mudança cultural no jurídico.

Sobre esse tema, Sadik Sarkis, Gerente Jurídico do Assaí Atacadista, entende que nada deveria ser mais claro que o conhecimento jurídico.

“Quando você está com seu cliente, ele espera uma resposta simples e direta de você, algo que o auxilie na tomada de decisão. Por isso, você precisa estar aberto a uma percepção de mercado”, acredita.

“Se queremos uma sociedade mais efetiva, com menos atritos e onde todos se entendem, o advogado tem que repensar seu papel e lidar melhor com os profissionais e pessoas que o cercam, facilitando o diálogo e cirando pontes”, resume.

  1. Tecnologia e direito: a aplicação de inteligência artificial e automação nas rotinas do setor

Em sua experiência no Laboratório de Empresas na FGV-SP, Alexandre Pacheco fala sobre uma ferramenta aplicada ao jurídico para controle e gestão de processos.

Trata-se de um software robusto que tem um pequeno módulo de inteligência artificial e machine learning: esse recurso era capaz de aprender com o tempo, de acordo com os textos que eram inseridos no sistema, os tipos de argumentos que seriam usados pelos promotores e autocompletar petições, cuidando de demandas repetitivas.

Com isso, poupou muito tempo de trabalho da equipe — cerca de 35% do tempo dos procuradores — e alavancou a produtividade. Ele adianta que o próximo projeto que vai tocar com os alunos da FGV-SP é a criação de um chatbot com o intuito de atender dúvidas jurídicas da população.

No fim, todos os especialistas aqui citados concordam que o uso da tecnologia no setor é altamente favorável, pois racionaliza os trabalhos, ajudando a deixar o setor mais acessível, menos lento e burocrático, além de promover uma mudança cultural no jurídico.

“O tempo hoje é outro e o cliente quer trabalhos mais lógicos e racionais. Assim, essas ferramentas fazem mais sentido aos processos. Por exemplo, como você ajuda seu cliente do varejo a vender mais? Fazendo contratos mais amigáveis e garantindo que os produtos saiam com maior velocidade. Dessa forma, contribuímos para melhorar o negócio e criar valor dentro das empresas”, conclui Vivian.

A mudança cultural no jurídico é um dos temas que será tratado pela segunda edição do Legal Innovation Forum, que será realizado pela Blueprintt nos dias 12 e 13 de junho.

Empresas como Petrobras, Santander, Mercado Livre e BNDES mostrarão as iniciativas que estão ajudando as suas companhias a posicionar o jurídico como protagonista na transformação cultural.

Saiba mais sobre o evento clicando aqui.

Autor

Renan Oliveira

Jornalista com experiência de treze anos em comunicação e atuação em segmentos como economia, indústria, ciência, tecnologia, turismo, esporte, cultura, gastronomia e terceiro setor.