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Qual o impacto da Inteligência Artificial no mercado de trabalho?
A tecnologia está rapidamente se tornando fundamental em áreas tão diversas como veículos autônomos e negociações financeiras. Veja alguns dados que já temos sobre o assunto.

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A cada dia ouvimos mais e mais sobre os impactos da Inteligência Artificial nas empresas, nas profissões, nas pessoas e na sociedade.

 

Entretanto, até recentemente, a IA era similar à fusão nuclear, uma promessa não cumprida.

 

Muitas expectativas foram frustradas ao longo de décadas de experimentações.

 

Mas, agora, a IA está mostrando um potencial ainda não totalmente conhecido para alcançar capacidades humanas. Ela está rapidamente se tornando a tecnologia fundamental em áreas tão diversas como veículos autônomos e negociações financeiras.

 

Algoritmos de machine learning e self-learning já são rotineiramente incorporados em muitos serviços. As implicações são profundas!

 

Alguns afirmam que a IA não vai afetar significativamente os empregos, enquanto outros afirmam o contrário.

 

Embora não tenhamos ainda provas definitivas, aqui e ali já aparecem estudos e pesquisas que mostram que a IA vai afetar sim o mercado de trabalho, e o que vai variar é o grau deste impacto.

 

Conheça algumas delas neste artigo.

 

Inteligência Artificial nas empresas

 

Li um artigo que me chamou muita atenção: JPMorgan Software Does in Seconds What Took Lawyers 360,000 Hours.

 

Ele descreve a iniciativa do banco americano, em um projeto de IA, chamado COIN (Contract Intelligence) que realiza automaticamente análises de acordos de empréstimos e que consome, em média, 360 mil horas de trabalho por ano de advogados e agentes de crédito.

 

O software, além de revisar os documentos em segundos, é menos propenso a erros e nunca entra em férias!

 

O JP Morgan está em pleno processo de transformação digital e uma frase de seu CIO “Anything where you have back-office operations and humans kind of moving information from point A to point B that’s not automated is ripe for that” é emblemática.

 

O impacto da transformação digital e da IA, nos negócios e na sociedade, será a de um devastador tsunami e não deve, sob nenhuma hipótese, ser negligenciado.

 

Mercado de trabalho como um todo

 

O recente estudo Robots and Jobs: Evidence from US Labor Markets mostrou alguns dados preocupantes.

 

De acordo com a pesquisa, direcionada para o mercado americano, um robô por mil trabalhadores reduz o índice emprego por população em cerca de 0,18-0,34 pontos percentuais e os salários em 0,25-0,5 por cento.

 

Para cada novo robô adicionado a uma fábrica americana nas últimas décadas, registrou-se uma redução de emprego, em torno da função automatizada, em 6,2 trabalhadores.

 

Bem, mas muitos vão dizer que o mercado americano é diferente de países em desenvolvimento, como o Brasil!

 

Certo, porém, infelizmente, talvez esta diferença não signifique proteção, segundo um estudo chamado Automation is set to hit workers in developing countries hard.

 

Na verdade, isto já está acontecendo na China, onde as indústrias estão agora se voltando para máquinas inteligentes como substitutos para o trabalho humano.

 

Uma fábrica de eletrônicos em Xangai já substituiu dois terços de sua força de trabalho humana e planeja se tornar 90% automatizada nos próximos anos.

 

A Foxconn que fabrica produtos eletrônicos para empresas como a Apple, recentemente substituiu 60.000 trabalhadores com robôs em uma única fábrica.

 

Esses exemplos estão longe de serem isolados.

 

A China já instala muito mais robôs industriais do que qualquer outro país e, no próximo ano, terá superado os dois maiores países industriais, EUA e Alemanha, em número de número de robôs industriais em operação.

 

Quarta revolução industrial

 

Um relatório do Banco Mundial, Digital Dividends, aponta que dois terços de todos os empregos no mundo em desenvolvimento enfrentam a real possibilidade de serem automatizados, embora a velocidade de substituição seja incerta e “dependa do ritmo da disrupção tecnológica” adotada pelo país.

 

Um artigo feito por um economista de Harvard e publicado no New York Times, The Mirage of a Return to Manufacturing Greatness, analisa que a desindustrialização prematura nos países em desenvolvimento faz com que a renda desses trabalhadores se posicione em um patamar muito mais baixo do que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, antes do início da transição para uma economia de serviços.

 

Em outras palavras, os salários se situam em patamares muito baixos para que os cidadãos dos países em desenvolvimento possam transformá-los na força consumidora necessária para sustentar uma produção automatizada, possibilitada pela quarta revolução industrial.

 

Na economia de serviços, o fenômeno da uberização muda significativamente o conceito de empregos, com os pagamentos sendo efetuados apenas pelo tempo que você realmente trabalha, com tendência a baixar renda e deixar em aberto questões como aposentadoria, seguro saúde e assim por diante.

 

A quarta revolução industrial está apenas em seu início e seus impactos no longo prazo ainda são bastante incertos, simplesmente porque ainda não temos dados disponíveis suficientes para termos uma visão clara de como a IA, a robotização e uberização afetarão o emprego e as funções.

 

A próxima revolução industrial não irá replicar o passado, simplesmente porque a rápida adoção em massa da robótica e da IA ameaça destruir muitas indústrias quase simultaneamente, sem dar tempo de recuperação à economia e a sociedade em geral.

 

Os avanços da robótica podem ser tais que, de repente, a maioria, senão todas, as funções humanas básicas envolvidas no trabalho manual poderão ser realizadas de forma mais eficaz e mais barata por máquinas, com a vantagem destas serem capazes de trabalhar continuamente com um custo marginal mínimo.

 

Por outro lado, oportunidades de emprego

 

A IA promoverá uma nova relação entre humanos e máquinas, e transformará a natureza do trabalho como conhecemos hoje.

 

Claro que a quarta revolução industrial também irá criar novos empregos. São necessárias pessoas para construir os sistemas de IA.

 

A Uber, por exemplo, contratou centenas de especialistas automotivos, dos quais cerca de 50 são do Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon.

 

Os especialistas em IA são os profissionais mais procurados hoje em Wall Street. Em segundo lugar, os seres humanos podem fornecer o senso comum, habilidades sociais e intuição que as máquinas não têm.

 

Infelizmente, estima-se que estes novos postos de trabalho, de alta qualificação, não serão suficientes para compensar o número de postos de trabalho pouco qualificados perdidos para a automatização.

 

O relatório do Banco Mundial alerta que “os países em desenvolvimento devem abraçar a revolução digital” e “redesenhar os sistemas de educação para criar as habilidades gerenciais e trabalhistas necessárias para operar novas tecnologias”.

 

A quarta revolução industrial não é opção, mas uma necessidade para os países se manterem competitivos.

 

Há uma percepção que a maioria das economias dos países desenvolvidas estão mal preparadas para a quarta revolução industrial.

 

Em economias mais atrasadas como a brasileira, essa percepção é realidade!

 

Isso pode significar o deslocamento de milhões de empregos, a destruição de muitas empresas hoje sólidas e tradicionais que serão lentas em se adaptar e um grande aumento na desigualdade de renda na sociedade.

 

Infelizmente, percebo que, aqui no Brasil as discussões sobre o efeito da IA e seus impactos continuam muito distantes.

 

Nada se ouve sobre o assunto pelos legisladores e gestores públicos, pouco se fala nas empresas, e em grande parcela da academia o assunto está restrito a poucos pesquisadores de ciência da computação. Sim, no Brasil estamos bem atrasados.

 

Mas é um grande equívoco subestimar os riscos decorrentes da disseminação destas novas tecnologias.

 

Recomendo a leitura de um instigante artigo publicado na Economist, Will robots displace humans as motorised vehicles ousted horses?, que faz uma analogia do uso massivo de IA e robótica no emprego com a chegada dos automóveis e a substituição dos cavalos.

 

O artigo deixa claro que a resposta é “provavelmente não, mas os seres humanos têm muito a aprender com a experiência equina”.

 

Qual sua opinião sobre o assunto?

 

Compartilhe conosco nos comentários.

Autor

Cezar Taurion

Head & Partner Digital Transformation na Kick Ventures e Presidente do Instituto de Inteligência Artificial Aplicada (i2a2), além de consultor sênior e evangelista de tecnologia. Tem educação diversificada em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços. Anteriormente, foi sócio fundador e CEO da Litteris Consulting e exerceu a função de diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist na IBM Brasil. Foi líder da prática de IT Strategies para a PwC. Atuou também em cargos técnicos e executivos em empresas como Shell, Chase Manhattan Bank e Origin.