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Lições sobre liderança com a primeira mulher no comando da federação mundial de RH
"O mundo corporativo está em ebulição. Os modelos vigentes não se aplicam mais nos dias de hoje e é preciso ter a coragem de reconhecer esse momento e inovar", afirma Leyla Nascimento.

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Mesmo em 2018, ainda se debate muito sobre o espaço das mulheres no mercado de trabalho e a falta de liderança feminina nas empresas.

 

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Mas muitos paradigmas já vêm sendo quebrados.

 

A primeira mulher eleita presidente da federação mundial de RH – a World Federation of People Management Associations (WFPMA) – é brasileira.

 

Leyla Nascimento não foi escolhida à toa.

 

Em sua trajetória profissional ela carrega grandes títulos: especialista em Recursos Humanos, é sócia-diretora do Instituto Capacitare e ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos.

 

Também já foi presidente para da Fidagh (Federación Interamericana de Asociaciones de Gestión Humana) e vice-presidente da CRHLP (Confederação dos Profissionais de Recursos Humanos dos Países de Língua Portuguesa).

 

Atuou por 23 anos no Centro de Integração Empresa-Escola do Rio de Janeiro, ocupando por 18 anos o principal cargo executivo da organização. Foi presidente da ABRH-RJ por dois mandatos consecutivos e também liderou a diretoria de Educação da entidade.

 

Leyla é formada em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pós-graduada em Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos pela UFRJ e Mestre em Gestão Empresarial pela FGV-RJ – Fundação Getulio Vargas. Também é autora do livro Gestores de Pessoas, de 2006, pela Editora Qualitymark.

 

Ufa! Com uma bagagem de admirar diversos líderes mundo afora, Leyla tem muito a dizer.

 

E a Blueprintt teve o privilégio de conversar com essa grande mulher e líder, que nos conta um pouco de suas experiências e sua opinião acerca do cenário profissional e da área de Recursos Humanos no Brasil.

 

Confira nossa entrevista.

 

[Blueprintt] Descrevendo um pouco sua trajetória, quais os tópicos mais importantes que você pautaria da sua carreira?

 

Comecei minha carreira com o cargo de secretária executiva (no tempo de 120 toques por minuto em uma máquina de escrever elétrica IBM!), depois fui para uma empresa de âmbito nacional para trabalhar em um setor de suporte a advogados em suas demandas jurídicas e com 6 meses fui promovida à chefia desse setor.

 

Em seguida fui para uma outra organização onde trabalhei por 23 anos e percorri uma carreira em ascensão até ser a principal executiva e única mulher na empresa em todo o Brasil neste cargo. Cito essas experiências mostrando que muito aprendi em cada um desses cargos e especialmente, na última, onde precisei estruturar uma área de Recursos Humanos e me interessei em ser associada da ABRH RJ, onde compartilhei com heads de RH muitas experiências e conhecimento.

 

O meu próprio trabalho voltado para implantação de programas de estágios e trainees me fez estar próxima e trabalhar com a área e profissionais de Recursos Humanos.

 

[Blueprintt] Por que pedagogia? O que levou você a ingressar nessa área e se descobrir em Recursos Humanos?

 

Interessante essa pergunta. Ao entrar para o curso de pedagogia na UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tinha clareza de que gostaria de atuar com a educação nas empresas. Era o início do incentivo de Programas de Treinamento e Desenvolvimento e as áreas de Recursos Humanos despertavam para a importância dos pedagogos.

 

Sempre tive o olhar da Pedagogia para ajudar as empresas a melhorar o preparo e a qualificação das pessoas. Seja na parceria do conhecimento com as Universidades ou mesmo em programas corporativos onde a excelência e qualidade são prestigiados.

 

A minha outra crença é que o profissional de Recursos Humanos é o educador na empresa em todos os seus atributos e missão.

 

[Blueprintt] Você é a primeira mulher (latina e brasileira) a ser eleita presidente de uma federação global de RH (WFPMA). Como você se enxerga essa posição?

 

Eu sou de uma geração de mulheres que precisou quebrar regras e paradigmas ao mostrar ser possível assumir cargos de liderança. Vivi inúmeras situações que precisei mostrar e demonstrar a minha competência para as funções que assumi. Poderia se fazer a pergunta: isto não vale para todos? No discurso sim, porém a prática foi e ainda hoje é diferente.

 

A minha geração assumiu um ambiente de valores masculinos, que era proibido falar de alegria, felicidade e emoção nos ambientes corporativos. No meu caso, em minhas crenças e valores, estes atributos eram a minha forma de liderar.

 

Fui e sou uma líder que exige resultados e boa performance, mas em ambientes que as pessoas se sintam bem.

 

Na minha empresa, o Grupo Capacitare, temos uma gestão assim. Somos reconhecidos pela alta qualidade do nosso trabalho, mas com um time motivado, com paixão e emoção e que gostam de trabalhar juntos. O nosso próprio serviço – colocar jovens talentos em programas de estágios e trainees –  requer em nosso time essa leveza e forma de trabalho. Aprendemos muito com o jeito de ser dessas novas gerações.

 

Essa é a minha crença na carreira. O cargo de primeira mulher liderando uma organização não é a primeira vez em minha trajetória. Esta é a quinta vez que represento as mulheres em cargos de liderança após 30 e 40 anos de existência das organizações pelas quais passei. Isso quer dizer que fui a primeira mulher presidente da ABRH do Rio de Janeiro após 30 anos e a primeira presidente ABRH Brasil, após 40 anos.

 

O diferencial neste desafio mundial é não somente ser a primeira mulher no cargo após 42 anos da WFPMA (World Federation of People Management), mas representar as mulheres latinas. Isto tem sido motivo de muita alegria e reconhecimento pela FIDAGH – Federação Interamericana das Associações de Gestão Humana -, na qual com muito orgulho fui presidente e eles me indicaram para essa posição mundial.

 

[Blueprintt] Liderança feminina nas empresas. Qual conselho você poderia dar para as mulheres que querem alcançar este sucesso profissional?

 

O melhor conselho que poderia dar é acredite na sua trajetória, faça leitura de cenários (esta tem sido a carência dos líderes); tenha a capacidade de ressignificar conhecimento (não é fácil aceitar que somos estudantes permanentes) e leve a proposta de que os valores femininos também podem propiciar performance com felicidade.

 

[Blueprintt] Como você mesma citou, você presidiu algumas associações, liderou importantes cargos em outras instituições, ergueu uma empresa (o Instituto Capacitare) e escreveu um livro sobre gestão de pessoas. Qual foi o gatilho que te impulsionou em cada projeto?

 

Carrego sempre comigo a pergunta da minha mãe: por que não? Sempre fui estimulada a me desafiar e ter coragem nos acertos e nos erros. Nossos projetos de vida e carreira precisam vencer as nossas dificuldades pessoais.

 

Existe a necessidade de se reinventar diante de cenários de muitas perguntas e poucas respostas e, claro, morar em um país como o Brasil, onde um dia não é igual ao outro. Sofremos impactos diários do governo, da economia e da sociedade.

 

Talvez daí, essa capacidade empreendedora do brasileiro em buscar vencer a si mesmo todos os dias. Esta minha fase atual de empreendedora, há quase 12 anos com o Grupo Capacitare, tem sido uma devolutiva muito boa de tudo que performei em minha carreira. Valeu e vale a pena os desafios que se apresentam em minha trajetória profissional.

 

 

[Blueprintt] E além da Leyla profissional, como é a Leyla mulher, mãe, avó? O que você leva de aprendizado do seu trabalho para sua vida pessoal e seu convívio familiar?

 

Sabe, vou dizer em primeira mão que estou escrevendo um livro sobre esse tema. Em minhas reflexões tenho visto como a minha carreira profissional e os meus atributos de liderança tem correlação com as fases de minha vida e os aprendizados que precisei obter.

 

Isto explica a tese de que somos um só, seja na família, como líder e profissional. Fico muitas vezes perplexa em conhecer líderes que em sua casa e com sua família é uma pessoa e no trabalho se reveste de alguém que não lhe representa, ou vice-versa.

 

Esses sofrem muito e, em um trabalho de coach, fica muito claro que essa harmonia pessoal não existe. Como os desafios corporativos e na sociedade são muitos, esses líderes não trabalham o autoconhecimento e geram frustrações para si e para o seu time. Vivo intensamente os meus dias, seja no trabalho ou na família.

 

Aprendi que a vida é fugaz e não tem hora e momento para ter fim. Me dou o direito de não perder tempo com coisas que não me acrescentam. Ser avó me ensina a leveza de amar e ser muito amada pelas minhas netas, apesar do pouco tempo que temos juntas. Aprendo que a qualidade do tempo que dedicamos às pessoas valem por dezenas de anos que poderíamos estar juntos.

 

Agia assim com os meus filhos. Precisei trabalhar com eles ainda pequenos em uma época que minhas amigas se dedicavam a cuidar de seus filhos e não trabalhar fora. Ouvia muitos conselhos que deveria parar de trabalhar. Segui em frente e, claro, minha mãe, por não trabalhar, foi um anjo da guarda sempre junto aos meus filhos.

 

Hoje não consigo fazer o mesmo pela minha filha, mas ela é pertence a uma geração de mais autonomia, de trabalhar e organizar sua vida familiar com muita competência e praticidade.

 

[Blueprintt] O reconhecimento pelo seu trabalho se deu de forma rápida? Qual o valor para você desse reconhecimento como profissional e como mulher?

 

O reconhecimento se dá quando alinhamos saber e prática. A capacidade de reconhecer nossas limitações em um tempo de muitas mudanças faz toda a diferença.

 

Ouvi de um especialista de uma universidade tcheca que, nem daqui a 50 anos saberemos identificar todos os impactos que recebemos nesta sociedade dominada por tecnologia e acesso à informação.

 

Não foi fácil para mim. Na medida que alcançava cargos de liderança precisei buscar conhecimento em áreas que não dominava por meio do curso de Pedagogia. Considerei importante fazer um curso de Finanças e Contabilidade, por exemplo.

 

Ao avançar em minha trajetória voltada para Recursos Humanos, fiz uma pós-graduação na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, de “Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos” e para dominar outras áreas da gestão, fiz o Mestrado Executivo da FGV – Fundação Getúlio Vargas.

 

Independentemente de ser homem ou mulher, as empresas precisam de pessoas qualificadas e que gerem resultados e, para isto, precisamos nos preparar para os desafios que nossa carreira nos impõem.

 

Sempre vi essas exigências do mundo corporativo como desafios de minha superação.

 

[Blueprintt] Você também é reconhecida pela sua trajetória voluntária na comunidade de RH e sua forte atuação em entidades associativas. Qual a importância que você enxerga disso?

 

O trabalho voluntário nos mostra que é possível contribuir para uma sociedade melhor. Independentemente da área que iremos atuar. Fui rotariana no mesmo ano que o Rotary abriu para a participação das mulheres e também cheguei a ser a primeira presidente mulher do meu clube.

 

O Rotary me ensinou um voluntariado voltado para uma faixa da sociedade que pouco olhamos: crianças e jovens de comunidades de baixa renda, ávidos por atenção e oportunidade. Aprendi a ter uma visão ampliada dessas comunidades do Rio de Janeiro e de outras partes do mundo. Fui do Conselho do Rio Voluntário, dirigido pela Heloisa Coelho, com projetos sociais belíssimos e a participação de líderes de empresas voluntários nessa causa.

 

Com a ABRH pude contribuir com a minha área profissional. Liderar líderes voluntários é uma experiência incrível. Precisamos reconhecer o pouco tempo que eles têm e fazer desse tempo o mais produtivo possível para a nossa associação.

 

Aprendi um pouco mais da arte de liderar, a humildade no servir e a atuar em diferentes projetos desafiadores e com poucos recursos em todo o Brasil. Obtive a certeza de que não podemos viver em uma ilha.

 

O mundo corporativo está em ebulição. Os modelos vigentes não se aplicam mais nos dias de hoje e é preciso ter a coragem de reconhecer esse momento e inovar.

 

E é exatamente aí que o associativismo contribui muito também para a nossa trajetória profissional. Na ABRH convivemos com os nossos pares e com líderes dos mais diferentes segmentos produtivos e isto tem um valor impagável no aprendizado e na troca de conhecimento. O voluntariado na ABRH exige muito de nós, porém o que aprendemos com esse associativismo não tem como mensurar.

 

[Blueprintt] E voltando um pouco para a área de Recursos Humanos, quais são, na sua opinião, os principais problemas hoje no setor, principalmente diante das transformações digitais e sociais que impactam o país?

 

Em primeiro lugar é entender que nossos processos de gestão de pessoas precisam ser revistos. Atrair talentosos profissionais exige a compreensão de que eles também escolhem as empresas nas quais gostariam de trabalhar. Processos seletivos precisam ser revisitados e transformados.

 

Assim como algumas empresas centenárias estão revendo seus modelos de avaliação de desempenho, por entender que as pessoas querem ser avaliadas pela capacidade de aprender e atender aos desafios futuros da organização, do que olhar o passado de sua performance.

 

Outro ponto é que a formação acadêmica é um passo inicial na vida do profissional e que o restante caberá ao profissional de Recursos Humanos orientar sua trajetória de carreira que, hoje, tem uma dimensão diferente.

 

Os profissionais são autores de sua carreira e precisam ser preparados para o mercado, e não para uma única empresa. Quando as áreas de Recursos Humanos têm esse entendimento, a empresa estará com profissionais competentes e preparados para os diferentes desafios que enfrenta de sobrevivência nesse mercado.

 

[Blueprintt] Como a área de RH pode gerar índices para as decisões estratégicas da empresa?

 

Essa é uma questão ainda, a meu ver, nevrálgica em nossa área de Recursos Humanos. Ainda temos resistência em levantar indicadores para tomada de decisão. Só que não temos mais tempo.

 

Com a inteligência artificial e os algoritmos, não podemos ignorar que nossas decisões ganharão agilidade e maior assertividade.

 

Se conectar a esse mundo da IA é uma das principais prioridades das áreas de Recursos Humanos. A acelerada tecnologia e o mundo digital levam-nos a repensar toda a área, alinhando-a com os novos desafios da empresa dentro desse mundo mutante e veloz.

 

[Blueprintt] E além desse desafio, como gerir equipes em época de crise?

 

Com muita comunicação simples, clara e objetiva. As equipes tendo informação contínua das estratégias e políticas de gestão que são adotadas em momentos como os de crise, saberão corresponder com produtividade e nutrirão a confiança nos gestores e na empresa. Lembrando que por erro de comunicação, muitas empresas perdem os seus melhores talentos ou geram uma imagem negativa no mercado em um momento crucial de sobreviver às turbulências sofridas no mundo corporativo.

 

[Blueprintt] Para finalizar, um rápido bate bola:

 

Maiores desafios da área de RH hoje:

Atrair os melhores talentos.

 

 

Trabalhar com pessoas é:

Gostar de gente.

 

 

Uma indicação de livro:

Sonhar Alto e Pensar Grande, de Theunis Marinho.

 

 

Uma referência em liderança:

Janete Vaz, Laboratório Sabin.

 

 

O maior desafio da sua carreira:

Corresponder aos cargos executivos que assumi.

 

 

Uma experiência de trabalho que ficou na memória:

Desenvolver programas para as novas gerações de talentos.

 

 

Ser a primeira mulher eleita presidente da federação mundial de RH é:

Ter a responsabilidade e o prazer de gerir uma organização de 93 países.

 

 

Receita de sucesso profissional (ou o caminho para ele):

Autoconhecimento do seu potencial. Não deixe a vida te levar. Leve a sua vida para o caminho que lhe dá prazer e reconhecimento do seu real valor.

 

 

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Autor

Jessica Moraes

Jessica é formada em Jornalismo e Pós Graduada em Marketing Digital, escreve sobre Negócios, Tecnologia, Inbound Marketing, Moda e Empreendedorismo.

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